Mensagem do Provedor


Queiram permitir que, neste momento tão solene, comece por evocar, telegraficamente, alguns passos marcantes da minha vida. Em criança, na catequese, aprendi que a misericórdia é a piedade ou compaixão que leva a conceder perdão, por pura bondade.

 

E que as obras de misericórdia são as acções que têm por objecto aliviar males do próximo, quer os do corpo, quer os do espírito. Entre as primeiras (corporais): dar de comer a quem tem fome; dar de beber a quem tem sede; vestir os nus; dar acolhimento aos peregrinos; assistir os enfermos; visitar os presos e sepultar os mortos.

 

Na adolescência avançada compreendi não serem menos importantes as setes obras de misericórdia espirituais: dar bom conselho; ensinar os ignorantes; corrigir os que erram; consolar os tristes; perdoar a quem nos ofendeu; sofrer com paciência os males que nos afligem e rogar a Deus por vivos e defuntos.

Enquanto estudante de Medicina, colaborei regularmente no Lactário e na Conferência de S. Vicente de Paula no CADC.
Na idade adulta aderi conscientemente a ser Irmão desta Santa Casa, mas, com uma vida profissional e familiar muito preenchida, quase nada participei nas suas actividades, embora sempre acompanhadas à distância com o respeito que mereciam.

 

Quem me diria que agora, no entardecer da vida, surgiria um tão exaltante desafio para colaborar com a Misericórdia de Coimbra, a minha terra, duma forma, não apenas esporádica, mas activamente, com responsabilidade assumida.

Agradecendo a confiança que os Irmãos em mim depositaram e com a ajuda de todos os homens e mulheres de boa vontade que aqui se congregam, passo, a partir de hoje, empenhadamente, a cumprir aquilo que é, no dia a dia, a realização do objectivos desta Santa Casa, que tão nobremente os nossos antecessores se esforçaram por alcançar, sendo, por isso, dignos da nossa homenagem neste momento.

Entre esses objectivos, destaco consolar os tristes, sabendo que “a alegria não mora numa habitação distante da dor, mas no andar de cima do sofrimento”.

Humildemente reconhecendo não ter nenhum de nós capacidade para instituir a que seria a 15ª obra de misericórdia, façamos todos um esforço para que saibamos actuar com alegria junto dos nossos irmãos mais desfavorecidos.
Oxalá sejamos, pois, capazes de incutir uma alegria esperançosa naqueles que sofrem e constituem a razão de ser da existência desta Santa Casa, a cujo serviço prometemos dedicar-nos de alma e coração durante o mandato que ora nos foi conferido.

Pelo que me toca, confesso que, com a aposentação, reduzida grandemente a minha actividade, fiquei instalado num doce comodismo, contrariado agora, ao surgir o desafio – que agradeço – de poder colaborar em acções de beneficência da Misericórdia da minha cidade, numa época em que no mundo, em geral, e no nosso país, em particular, alastra a pobreza material, infelizmente a par com a debilidade espiritual.

Nestas circunstâncias e possuidor ainda de alguma saúde, foi-me impossível recusar esta proposta para Provedor, na certeza de que todos os que laboram nesta Santa Casa estão imbuídos de alto espírito de serviço, prontos a, solidariamente, se disporem a difundir aquilo que mais falta faz no mundo actual: caridade.

Se a solidariedade é o sentimento de ternura, piedade, simpatia, pelos pobres, pelos desprotegidos, pelos que sofrem, a caridade, rainha de todas as virtudes, consiste em fazer o bem ao próximo pelo amor de Deus.

Se a misericórdia é dó, compaixão, sentimento de bondade causado pela miséria alheia e, de acordo com o compromisso fundador, o Provedor tem de ser “homem honrado, de autoridade, virtuoso, de boa fama e muito humilde e paciente”, embora reconhecendo não ser detentor destas características, tenho a esperança de que, em sintonia com todos os colaboradores desta Irmandade, alegremente, sejamos capazes de contribuir para que os tristes sejam consolados e os doentes possam sofrer com paciência as agruras das suas vidas.

Assim, Deus nos ajude!

 

prof

 

 

 

 

Prof. Doutor Armando Lopes Porto

 

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